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Consumo e endividamento das famílias

A “lua de mel” acabou?

alexandrepoffo 

Possibilidade de adquirir um televisor com alta tecnologia. Comprar aquele carro 0km. Revitalizar os eletrodomésticos, móveis, aquele celular de última geração, e assim poderíamos citar vários dos “sonhos de consumo” sempre distantes das possibilidades financeiras de milhões de brasileiros. Este é o cenário que virou realidade para milhões de famílias e fizeram com que o endividamento das mesmas chegasse a 64%, ou seja, o total de famílias brasileiras que tem algum tipo de dívida. Este indicador voltou a aumentar em maio, segundo dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). De acordo com a pesquisa, 64,3% das famílias consultadas tinham algum tipo de dívida, entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro. Em maio de 2012 esse indicador era de 55,9% – mais de oito pontos percentuais abaixo da atual. Ainda segundo a CNC, o endividamento das famílias que recebem até 10 salários mínimos foi de aproximadamente 66%, índice maior do que as famílias que recebem acima de 10 SM.

Longe de impedir a felicidade de milhões de pessoas, afinal de contas vivemos para “ser feliz”, mas quando a emoção supera a razão, a felicidade pode ser de curto prazo e logo após, substituída por preocupações e frustrações. Preocupa ainda mais quando descobrimos que 67% das pessoas não sabem quanto pagam de juros, efetivamente. Muitas famílias, no entanto, acabam gastando sem se preocupar como pagarão depois, em sua grande maioria tomada pela impulsividade, praticamente 80% das compras são decididas por impulso, e a razão? Fica em segundo plano.

O filósofo inglês Thomas Hobbes registrou a frase latina: Primum vivere, deinde philosophare -Primeiro viver, depois filosofar. É assim que busco minha fundamentação e conhecimento a respeito do tema em discussão, pois atuando no mercado financeiro, a possibilidade de contato com o público me proporciona constatar na prática todas estas situações, além de aprender com mais de dois anos palestrando sobre finanças pessoais para os mais diversos públicos e ainda a oportunidade de participar em trabalhos de orientação financeira em empresas. Durante a palestra ou no serviço de orientação torna-se evidente a percepção da falta de controle e organização financeira, para a grande maioria das pessoas a utilização de algum tipo de controle (orçamento doméstico) para o registro de suas receitas e despesas, infelizmente não é algo comum, aqueles que usam esta ferramenta raramente ultrapassam 5% do público. Esta falta de planejamento se desdobra nas mais diversas dificuldades, seguramente um bom tema para o próximo artigo, mas para citar apenas dois exemplos, o cheque especial e o cartão de crédito representam 71% do endividamento das famílias e quando tomado é muito mais difícil para sair, seja por acomodação ou falta de conhecimento para buscar outras soluções. Vale lembrar que os juros a serem pagos devem ser relacionados nas despesas, caso a família já esteja endividada. Entretanto, a saída ideal é substituir por taxas menores como os empréstimos pessoais ou consignados. Analisando os percentuais de famílias com contas em atraso, considerando o segundo semestre de 2012 (setembro) até maio de 2013 o aumento foi de 19,01% para 21,6%, se considerássemos apenas as famílias até 10 salários mínimos o percentual chegaria a 24,2%. As famílias que não terão condições de pagar seus débitos somam 7,5% em maio, em março deste ano era de 6,3%.

A incessante busca por um desempenho do PIB que nos satisfaça incentivou as pessoas a adquirirem bens, seja pela redução de IPI, linha branca, redução dos juros bancários, prazos mais elásticos, entre outros. Todavia, não podemos esquecer que a partir do momento que você compra um carro, por exemplo, aquela parte da renda já está comprometida. E mais, as políticas de incentivo surtiram efeito, mas momentaneamente. Esse tipo de modelo se esgota. Achar que as famílias vão seguir se endividando não é uma hipótese muito razoável. Não há essa disposição. O resultado do primeiro trimestre comprova isso. Se essas políticas pontuais não vierem acompanhadas de ciclos de investimentos, não há continuidade. Portanto, é incerto pensar que alguém sai comprando geladeira todo semestre ou carro todo ano. Se a acomodação do consumo das famílias, por exemplo, se configurar uma tendência, é sinal claro de que o modelo de crescimento fortemente baseado no consumo estará chegando ao esgotamento.

Em relação ao aumento dos investimentos, é preciso cautela: o indicador ainda não revela uma retomada, mas, sim, um retorno a patamares anteriores. Não dá para afirmar que o ritmo será mantido. Viemos de um crescimento do PIB em 2012 de 0,9%a.a. Para 2013 a meta que consta no orçamento federal já está sendo atualizada para baixo, foi definida em 3,50%a.a., mas já está em 2,53%a.a., a quarta queda seguida deste indicador. Outro ponto relevante é que a expansão do crédito em relação ao PIB é superior à sua tendência de longo prazo, ou seja, o crédito cresceu mais que o PIB nessa proporção nos três anos anteriores, formando um “gap de crédito”. Este descompasso pode ser um sinalizador antes de uma crise.

Portanto, a dupla dinâmica: “consumo das famílias” e “crescimento da economia” mostram sinais de alerta. A estagnação do consumo das famílias pode indicar que o poder de compra começa a ser corroído pela persistente inflação alta. O Banco Central utilizando-se de suas ferramentas trata da inflação com taxa de juros, para isso vem aplicando reajustes na Taxa Selic, hoje em 8%a.a., porém, já com expectativas de encerrar este ano em 9,50%.

Refletir é urgente.

 

Alexandre Poffo

Economista, Conselheiro da Ordem dos Economistas – Seccional Norte/SC.

Diretor de Operações da Acredi – Cooperativa de Crédito.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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